Dizem que as pessoas que têm animaizinhos domésticos (os tais pets) são mais amorosas e gentis.
Pois é, moro, como os demais prisioneiros do Plano Piloto de Lúcio Bosta, em uma super-quadra de Brasília onde os vizinhos têm de se tolerar, apesar de raramente um saber o nome do outro.
Vivo no quarto andar de um bloco (edifício) onde estou há quase oito anos. No andar de cima vive atualmente um casalzinho jovem, que adora brigar e dar festas, qualquer que seja a ordem dos eventos.
Ao lado meu lado, um casal de sexagenários que viaja mais do que outra coisa, e raramente eu ou eles percebemos nossas presenças.
No andar de baixo, pessoas de uma mesma família ocupam os dois apartamentos, e consideram que a área comum do prédio faz parte dos apartamentos deles.
Todos temos de conviver com latidos provenientes de vários lugares, no bloco ou de outros locais da quadra. Pior mesmo é quando uma família do bloco em frente resolve sair a passeio o dia todo e deixam o auau, um monstro sei lá de que raça, latindo o dia todo, de solidão, com todo aquele vozeirão que tem. Outros preferem aqueles bichinhos minúsculos, que ganem fininhos, por pura chatice e aporrinhação de cachorrinho de madame.
Eu gosto muito de animais, e todas as vezes em que vou à casa de amigos, sejam gatos ou cachorros, eles vêm brincar comigo, mesmo que seja a primeira vez que entremos em contato. Ou seja, tenho uma boa relação com os bichos, muito melhor do que esses bípedes cretinos que querem ter animais, mas não cuidam deles convenientemente. Só não os tenho, justamente porque se passo o quase todo o dia todo fora, não vou querer que o bicho fique aqui sòzinho, para no final se tornar ainda mais neurótico do que eu. Que raio de prazer teria em fazer isso com um bicho? Egoísmo mais idiota, sô…
Pois há uns dias, em um sábado, ao descer pela escada (para um pouco de exercício), vi no canto do andar debaixo um grande Rio Amarelo que o chinesinho havia feito junto à porta do apartamento. Mais adiante, perto do elevador de serviço, quatro Montes Everestes marcavam a fronteira do Tibete. Era ainda cedo, e deixei aquilo sem comentário.
Porém, quatro horas depois, fui outra vez descer pela escada, e lá estavam ainda as marcas da geografia chinesa no espaço comum do terceiro andar. Bem, dessa vez não me restou se não ir procurar o zelador, que foi imediatamente falar com o síndico.
Quando eu voltei, ouvi do térreo, enquanto esperava o elevador, que lavavam o hall do andar. Sabia, pelo zelador, que não eram os empregados do prédio que estavam a fazer o serviço.
Acho que pessoas assim não precisavam ter animais. Aliás, elas deveriam ser embaladas em garrafas pet, para melhor preservação do ambiente. Quem sabe os cientistas poderiam descobrir uma fórmula de reciclar esse tipo de cerumano.