Um blogue mal humorado, com aversão ao abominável modismo do "polìticamente correto" (hipòcritamente mal-resolvido). Blogue de um cético convicto, com a própria ortografia.

Vai viajar?

Vai viajar? Vai pegar uma rodovia e fazer um longo trajeto? Então esqueça aquela publicação famosa sobre “estradas” e turismo, que a cada ano se especializa em um nicho exclusivo de viajantes. São os ecochatos e seus assemelhados.

Nas centenas de páginas do guia, há várias menções a lugarejos onde não há hospedagem, mas que são indicadas porque nas proximidades há alguma cachoeira ou alguma árvore especial onde os ecochatos e os apreciadores de “ischpórti radicáu” poderão se deliciar.

Além dessas, consta do guia um grande número de lugares que se especializam no “turismo rural”. Nada mais. Turismo urbano é quase palavrão, a menos que se trate de uma capital estadual.

Se você simplesmente precisa de uma indicação de uma cidade à beira de uma rodovia, para descansar durante uma longa viagem, esqueça, o guia não está preocupado em atender esses leitores “alienados”, que usam automóvel para deslocamentos que não são “descolados”.

Inúmeras cidades, com centenas de milhares de habitantes, são simplesmente ignoradas, ou, quando muito, são relacionadas em um anexo (o famoso “puxadinho”), em que os hotéis não são qualificados nem há outras informações sobre a cidade. Mesmo que, como me afirmou um funcionário de um desses hotéis de uma dessas cidadezinhas de seus 300 mil habitantes, um diretor da mesma editora costume se hospedar ali, quando precisa dar uma parada com seu automóvel importado da Itália.

Dezenas de cidades litorâneas também foram relegadas ao “puxadinho”, pois não fazem o “estilo chique” que os “analistas” do guia visitam.

Estive várias vezes em uma grande cidade do norte do Rio Grande do Sul, e achei curioso que o guia mencionasse um hotel como o melhor da cidade, sendo que eu tinha conhecido vários deles, e aquele “melhor”, na minha classificação, ficaria com seu merecido terceiro lugar. Um funcionário do hotel que eu considerei o melhor relatou que, ao contrário do que diz a propaganda, a “ética” (ou melhor, a falta dela) dos “investigadores” do guia exige mordomias que nem todos os hotéis estão interessados em bancar. Para o hotel, é melhor manter um público fiel do que obter pontuação por meio de um “jabá” (a forma de corrupção comum nos meios jornalístico e musical).

Em quantos bons restaurantes você já esteve e não havia a placa indicativa de que “o analista comeu aqui”? E, por outro lado, quantas vezes você já foi a um restaurante “estrelado” e se sentiu enganado?

Sem contar que são de se perder a conta os casos, em que no guia são simplesmente omitidas as distâncias que interessam a quem está na estrada. As indicações são, via de regra, à capital estadual, como se só essas cidades fossem centros regionais e “nós rodoviários”. Além disso, o tal “mapão” “gosta” de ser desatualizado, pois não exibe rodovias que já foram duplicadas, e outras que servem de desvios à indústria de pedágios do Sudeste.

Total omissão de localidades que são importantes pontos de apoio em rodovias que têm poucos postos de combustíveis. Afinal de contas, as conhecidas redes de postos paulistas existem em toda parte, segundo a crença dos “especialistas em turismo”. Exceto nos outros estados.

Fiz uma verificação com edições de vários anos do conhecido guia, e sinceramente é melhor não gastar mais dinheiro com as “atualizações” anuais. Seus editores pensam que todos os leitores e viajantes do país acreditam na “imparcialidade” dos comentaristas (não vou usar a palavra jornalista, porque seria qualificá-los imerecidamente a algo que eles apenas tem pretensão de ser).

Por que não fazem um guia de turismo rural, um guia de turismo “radical”, e voltam ao estilo antigo de proporcionar informações aos viajantes de automóveis? Não era a isso que se dedicava a publicação? Ou o nome é apenas uma abjeta tradição pequeno burguesa? Já sei, as experiências de setorização do público não deram certo, pois ecochatos e assemelhados não gastam dinheiro com publicações. Motoristas, porém, podem contar com meios de informação mais variados do que as de-formações que os “especialistas em turismo” repassar.

Obs.: Encontrei na última semana uma família que viajava de automóvel do Rio Grande do Sul ao Maranhão. Evidentemente que o guia não atende às necessidades desses rodomaníacos.

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