Um blogue mal humorado, com aversão ao abominável modismo do "polìticamente correto" (hipòcritamente mal-resolvido). Blogue de um cético convicto, com a própria ortografia.

Inhotim

Inhotim, a fazendo de Nhô Tim, em Brumadinho – MG, virou um lugar muito divulgado no turismo brasileiro.
Você gosta da “ártchi mudérna”?
Você não gosta da “ártchi mudérna”?
Você gosta de parques e jardins?
Bem, essas são algumas coisas do acervo do Instituto Inhotim.

O que você acha de uma parede com um buraco fechado com tela de galinheiro?
Isso é “ártchi mudérna”.

O que você acha de três Fuscas velhos, em que um trocou com outro os pára-lamas, ou as portas, ou o capô?
Se esses três Fuscas estiverem sobre um gramado em um parque, isso é “ártchi mudérna”.

O que você acha de três bonecos simbolizando aqueles inglesinhos dos bítous, em um carrinho de feira?
Isso é “ártchi mudérna”.

O que são duas esferas de mármore uma ao lado da outra?
Claro que é “ártchi mudérna”.

Um caleidoscópio grandão, no meio de um jardim, muito mais sem graça do que o que minha avó tinha, que era de papelão e pedaços de vidro, também é “ártchi mudérna”.

Bem, esses conceitos velhíssimos de “ártchi mudérna” já têm seus cinqüenta anos.
Continuam, porém, valendo para os “artchistas” que se recusam a mudar seus conceitos embolorados e até apodrecidos. No braziu, a “ártchi mudérna” ainda tem seus seguidores, assim como a “arquichatura mudérna”.

São alguns dos comentários que tenho a fazer do Parque Inhotim.
Contudo, a parte de paisagismo é simplesmente desbundante, desnadegante, destraseirante, e outras coisas semelhantes (menos desbumbunzante, que isso é coisa de academia de ginástica infantilizada).
Também são simplesmente descadeirantes os bancos feitos de troncos de madeira que estão espalhados por todo o parque. Um mais lindo do que o outro. Poltronas e sofás naturais, simplesmente com a madeira polida e envernizada.

Fora esse espetacular tratamento paisagístico, há algumas outras galerias que contêm maravilhas dos sentidos, mas, tal como eu havia escrito há pouco tempo, não são obras da arte visual, mas da arte sonora.
Um “filme” (na verdade apenas uma seqüência” de telas) com textos de linguas mortas ou em estado avançado de desaparecimento, enquanto o som autêntico daquelas línguas é pronunciado. (The Silent Movie, de Susan Hiller) Não apenas línguas indígenas, como cherokee e o de uma tribo de Santa Catarina, mas muitas línguas européias em extinção (ou extintas), como o Manx, a língua da ilha de Jérsei (onde o Maluf não tem dinheiro), o Sami finlandês, línguas eslavas da Alemanha, e até o francês cajoun da Louisiana.

Em outra sala, dezenas de alto-falantes, dispostos em tudo quanto é altura (do chão) e altura (volume sonoro), enquanto conta-se uma história trágica, complementada com orquestras, ventanias, pássaros, coros de soldados soviéticos, poesia, e sei lá quantas outras coisas, que fazem a história de um sonho. O texto é entregue às pessoas, mas, já que não leio em ambientes escuros, preferi simplesmente fechar os olhos e sentir toda a história sonora.

Há uma coisa horrenda de “ártchi mudérna”, que são umas placas de ferro/aço atiradas no chão, no alto de um morro. Mas essas placas produzem sons diferentes. A escultura é pavorosa, mas a sonoridade das placas é melodiosa.

Dentre as galerias, menciono uma que é um iglu, ou uma bola de futebol, ou uma cúpula geodésica, como quase queiram. Retrata mesmo um iglu, gelado (quente para o esquimó que lá viveria).
Só que há um pequeno detalhe: não há uma ambulância do lado de fora, para socorrer epilépticos e claustrofóbicos, porque o monitor joga as pessoas lá dentro, fecha a porta, e você é atacado por um feixe de luz estroboscópica (“mudérno”, não é?) que incide sobre uma fonte da água.
Excelente instrumento de tortura. Acho que Oba-obaminha poderia instalar uma dessas coisas em Guantánamo.

H uma casa (“galeria”)  com azulejos que imitam açougues. Montes e montes de pedaços de carnes. Coxas de frangos, bistecas, filés, etc.. Metros e metros dessa pintura.
Deve agradar os admiradores de filmes de zumbis, e também de Tarantino.

Um desses desconfortáveis pontos de ônibus de concreto, que poluem muitas cidades, está  classificado como “obra de ártchi mudérna”.

Em uma parte do parque, há várias estátuas de gente, sem cabeça, “fazendo çéquisso“.
Para que?
Não entendi…
Mas é tão mudérno quanto um baile funk.

Várias galerias estavam fechadas para reforma.
Isso encurtou o passeio.

Uma coisa muito ruim: vários caminhos (trilhas) dão em lugares bloqueados (“acesso restrito”), mas bem que poderiam colocar uma placa antes, para avisar as pessoas que há horas perambulam pelo parque que aquele caminho é sem-saída.
Bem, arquichatos não são conhecidos exatamente pela capacidade de ter boa comunicação visual.

Uma coisa que me impressionou, foram umas caixas revestidas de madeira, que têm um torneira de onde sai água de verdade. Puxa vida! Até parecem bebedouros! Isso para mim é arte.

Bem, é isso.
Se você odeia “ártchi mudérna”, ao visitar Inhotim continuará a odiar essa enganação.
Se você gosta de “ártchi mudérna”, vai se sentir à vontade, naqueles “avançadíssimos” conceitos das décadas de 50 e 60.
Se você não entende nada de plantas, mesmo assim vai achar esplêndidos os jardins.
Só não gostei das orquídeas instaladas como se fossem archotes em parede de igreja. Cafoninhas…

Visite Inhotim e curta a paisagem e o paisagismo.
Isso é arte.
Ah, e para ódio dos puristas, os jardins têm várias espécies vegetais que foram importadas de Madagascar e dos Estados Unidos, como uma incrível planta que parece um polvo.

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