Um blogue mal humorado, com aversão ao abominável modismo do "polìticamente correto" (hipòcritamente mal-resolvido). Blogue de um cético convicto, com a própria ortografia.

Num vai fazê janta?

Quando eu era criança (estranho, né, mas já fui criança), em uma casa que ficava a quatro casas de distância da minha, morava uma velha que tinha chegado ao Brasil durante uma escala da Arca de Noé.
Ela vivia com o filho e uma das famílias dele. (Naquele tempo, era comum alguns homens terem duas famílias, já que não existia divórcio e o casamento era eterno, não essa coisa de “eterno enquanto dure”, era indissolúvel – ele morava um pouco em cada casa, um pouco com cada família que tinha constituído).
Essa nora chamava-se Ermelinda.
Se dona Ermelinda saísse à rua, e conversasse com alguma vizinha (vizinhos se conheciam pelo nome e se falavam), lá pelas 3 ou 4 da tarde, a velha chegava no portão e gritava:
– Melinda, num vai fazê janta bra marido?

Lembrei disso porque há pouco, no estacionamento da escolinha que há em frente ao prédio onde moro, um bando de “peruas” parou para conversar de dentro de suas “peruas” e bloqueou o trânsito de outras pessoas.
Começou uma buzinação.
Olhei pela janela e tive vontade de gritar:
– Melinda, num fazê janta bra marido?
Mas acho que as “peruas” não entenderiam…
O marido deve estar na outra casa, talvez.

Comentários em: "Num vai fazê janta?" (1)

  1. Uma delícia de crônica.
    Lembro da mulherada levando as crianças para o colégio ao meio dia, todas de rolinho e lenço, e depois, às 5, já arrumadíssimas e penteadas, buscando a filharada de volta, e prontas para a hora dos maridos voltarem…
    Parecia engraçado, natural. Bem Família, Tradição e Propriedade.
    Éramos felizes e sabíamos.

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