Um blogue mal humorado, com aversão ao abominável modismo do "polìticamente correto" (hipòcritamente mal-resolvido). Blogue de um cético convicto, com a própria ortografia.

Americanos e outros gentílicos

Dando prosseguimento ao post sobre o nome de alguns países, vamos falar de seus gentílicos.

Em seu livro “Bandeirantes e Pioneiros”, Vianna Moog mostrou que as pessoas que foram viver nas treze colônias, que constituíram depois os Estados Unidos, foram as primeiras a se identificar como “americanos”, enquanto que os índios nunca tiveram essa noção de nacionalidade, e os nascidos de colonizadores portugueses (“muzambos”) e espanhóis (os “criollos“) renegavam a todo custo o fato de que estavam permanentemente na América, sempre com os olhos voltados para os países dos antepassados.

Hoje em dia é comum a rejeição ao gentílico americano ao se referir aos Estados Unidos da América. Eles seriam “estadunidenses”, uma expressão copiada do espanhol. Outros preferem utilizar a expressão “norte-americanos”, que exclui canadenses e mexicanos (daquele país que até recentemente se chamava oficialmente Estados Unidos Mexicanos).

Estados Unidos, porém, a famosa sigla U.S. (“nós”), refere-se à forma de governo de um país, que se chama América. Da mesma forma o famoso U.K., o Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte. O Brasil também já foi reino unido, não esqueçamos. Forma de governo, não nome do país.
No caso da ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sequer havia nome do país, apenas uma sigla que identificava a forma de governo de várias repúblicas que depois se separaram. Caso bem diferente da ex-Iugoslávia, que significa Eslávia do Sul, embora excluísse os búlgaros.
O mesmo caso dos Emirados Árabes Unidos. Aliás, qual o adjetivo para se referir aos EAU? Árabe? A pergunta sobre o uso da palavra “americano” vale também para “árabe”. Uns o seriam mais do que “outros”.
Por fim (mas sem encerrar o assunto), temos a República Tcheca. Sem nome para uso em português, embora exista a palavra Tchéquia (usada pelos alemães Tschechien), já que existe em tcheco uma palavra para designar o país – Cesko (com acento circunflexo invertido no C), do mesmo modo que a República Eslovaca é chamada de Eslováquia, inclusive pelos brasileiros.
Por falar nisso, por que chamamos a República Argentina (argentina = adjetivo) simplesmente de Argentina (substantivo), e não de Prata (palavra a que se refere o adjetivo)?

Somos americanos, sem dúvida, mas mesmo essa noção de que fazemos parte do mesmo continente que “os outros”, do Alasca à Patagônia, só surgiu depois da Doutrina Monroe. A América para os americanos, fosse lá o que isso significasse. Quais americanos?

Tenho porém certeza de uma coisa: nossos vizinhos não são nossos “hermanos“. Temos mãe e pai diferentes. Aliás, não custa lembrar que até hoje a “madre patria” não se sente consolidada, haja vista os movimentos separatistas em parte dos antigos reinos de Navarra (País Basco) e de Aragão (Catalunha), que não se adequaram inteiramente ao casamento de Leão e Castela. Em Portugal, por sua vez, separatismo é uma palavra pràticamente desconhecida.

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Comentários em: "Americanos e outros gentílicos" (2)

  1. Então US indica uma forma de governo? Que curioso, vou ter que pesquisar pra saber mais.

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  2. Interessante. Já pensou se em vez de brasileiros fôssemos republicanos ou federativanos?

    Sobre nomes de países ou regiões, mas distanciando da abordagem do artigo, algumas curiosidades sempre me chamaram a atenção:

    – a Islândia, que tem na origem do nome o fato de ser um lugar gelado, chama-se Iceland (terra de gelo) em inglês; Ilhândia e Gelândia soariam estranho em português, mas ainda assim o nome faz lembrar ilha, e não gelo;

    – a Groenlândia, em inglês, se chama Greenland (terra verde), embora haja controvérsias sobre a origem do nome e se o prefixo “gron”, no idioma de origem, compôs a palavra com o objetivo de se referir a green/verde;

    – o nome Peru nada tem a ver com a ave e é escrito da mesma forma em espanhol, português e inglês; já aTurquia, em inglês, se chama Turkey, que quer dizer o bicho-peru (embora não tenha esse mesmo significado em inglês antigo, quando o nome foi criado);

    – Irlanda, em irlandês, é Éire, em alusão a uma determinada deusa; em inglês, Ireland; em português, por que não Irlândia ou Eirelândia?

    – San Francisco (Caifórnia, EUA), é São Francisco em português, mas Los Angeles não é Anjos ou Os Anjos;

    – a cidade portuguesa do Porto, em inglês, se chama Oporto;

    – São Paulo, em inglês, não é Saint Paul e nem Saint Paulo ou Sao Paulo, é Sao Paolo;

    – em português, Buenos Aires não é Bons Ares, mas Montevideo é Montevidéu e Asunción é Assunção;

    E por aí vai… com certeza existem muitas outras curiosidades sobre nomes de países, cidades e regiões e suas origens.

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