Um blogue mal humorado, com aversão ao abominável modismo do "polìticamente correto" (hipòcritamente mal-resolvido). Blogue de um cético convicto, com a própria ortografia.

Posts marcados ‘revista Exame’

a enpreimça

Sempre reclamei aqui da chamada enpreimça brasileira.

Só que ela tem piorado.

Os principais jornais e revistas eståo em um nível nunca antes imaginado.
A maioria das manchetes contêm apenas fofoquinhas de pseudo-famosos da televisåo e seus namoros.

A parte política é um amontoado de clichês de estudantes em assembléia.

A falta de revisåo e as incoerências encontráveis em cada artigo superam boa parte dos leitores.
Traduçøes muitas vezes nåo fazem sentido.

A cada dia encontro menos prazer em algo que até alguns anos (uns 30, a bem dizer) ainda tinha significado.

Stanislaw Ponte Preta havia escrito, em 1966, o Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País. Se estivesse vivo agora, sem dúvida ele choraria ao constatar que tudo o que é ruim sempre pode piorar.
Hoje em dia, a enpreimça brasileira é o caminho mais rápido para o emburrecimento.

 

 

Etimologia, pensamento e realidade

Um amigo me enviou o link de uma matéria antiquíssima, lá do tempo em que o século XX ainda estava nos estertores.

Não vou apenas dar o link, mas vou copiar integralmente o texto.

28/06/2000 00:00

Lucro é logro?

A linguagem diz muito sobre quem a usa

Alaor Barbosa, EXAME
A língua é um espelho fiel da cultura do lugar onde é utilizada. Muitas vezes a capacidade da linguagem de traduzir como pensam e como agem as pessoas em uma determinada sociedade não fica clara porque a utilizamos de modo inconsciente no dia-a-dia. Mas é notável como os nomes que damos às coisas denunciam a maneira como as vemos.
Repetimos todo dia palavras que trazem em si conotações que nem sempre percebemos. A origem das palavras revela intenções e significados muito interessantes – os quais, apesar de não captarmos no nível da consciência, influenciam dramaticamente os nossos pontos de vista sobre as coisas. Uma boa forma de enxergar o fenômeno é comparar conceitos iguais em idiomas diferentes.
A palavra lucro, por exemplo. Quem pesquisar a sua origem descobrirá que lucro tem a mesma raiz que logro – palavra que sugere maracutaia. Os romanos antigos usavam os dois termos indistintamente para identificar vantagens obtidas numa transação – tanto no sentido positivo quanto no negativo.
Ao longo dos séculos, o uso do termo lucro concentrou-se nas classes mais cultas, enquanto nas camadas mais populares o mesmo conceito passou a ser mais comumente expresso pelo termo logro. No português moderno, logro ganhou uma carga pejorativa muito grande – que acabou respingando um pouco no seu primo-irmão, o termo lucro. Note o quanto é comum entre os brasileiros condicionar o lucro obtido por uma empresa a algum tipo de safadeza – de logro – impingido ao consumidor.
Essa conotação não existe na língua inglesa. O termo profit, que quer dizer lucro, tem uma raiz comum com a palavra proficiency, que, por sua vez, remete à idéia de eficiência. Na comparação, fica claro que os americanos e ingleses associam lucro ao mérito, à competência, e não a vantagens indevidas, àquilo que é feito para lesar, como ocorre no Brasil. No âmbito da língua inglesa, portanto, lucro advém da solução de um problema – e nada tem a ver com o eventual logro operado sobre uma das partes envolvidas no negócio.
Estas dessemelhanças etimológicas não são mero jogo de palavras. Elas refletem importantes facetas da cultura nacional, lá e aqui. Se, de um lado, incorporamos conceitos de nossa cultura à linguagem que utilizamos, de outro, nossas atitudes acabam sendo influenciadas pelos conceitos que estão embutidos nas palavras. A proximidade entre as idéias de lucro e de comportamento tortuoso, incorreto, antiético na língua portuguesa tem tudo a ver com o fato de que a maioria das sociedades que falam o português é bem menos favorável à cultura empresarial moderna do que a maioria das sociedades que falam inglês.
É verdade que o processo de desenvolvimento econômico é mais amplo do que uma discussão semântica. Ninguém aqui está afirmando que, se tivéssemos sido colonizados pelos ingleses e falássemos todos a língua de Shakespeare, nossa situação seria melhor. Estão aí a Índia e alguns países da África que não nos deixam mentir.
Mas há vários outros exemplos de diferenças filológicas que demonstram com clareza as marcantes distinções que há entre as culturas portuguesa e anglo-americana no que diz respeito aos negócios. O caso do salário é típico. No Brasil, o sujeito usa o verbo ganhar para se referir à sua remuneração. Ou seja, quando falamos sobre o salário de alguém, dizemos que o sujeito ganha um determinado valor.
Em inglês, o mesmo conceito é expresso de modo diferente. Para se referir à remuneração de alguém, usa-se o verbo fazer (to make). Perceba que essa distinção revela uma brutal diferença de atitude entre quem ganha um salário no Brasil e quem faz o seu salário nos Estados Unidos ou na Inglaterra. O pressuposto no Brasil é que a empresa “dá” o salário para o seu funcionário. Na verdade, como está bem melhor expresso na língua inglesa, a empresa apenas o recompensa pelos serviços que presta, pelos resultados que gera. Ou seja, é o empregado que “faz” o seu dinheiro.
Seria possível ficar o resto do dia comparando os sentidos distintos que um mesmo conceito assume em diferentes línguas e inferindo, a partir deles, os valores de uma e de outra sociedade. Estaríamos percebendo o quanto a língua não é isenta. E o quanto, no que toca à economia e ao mercado, as analogias mostram que o ambiente brasileiro não é o melhor lugar do mundo, infelizmente, para fazer negócios.
Alaor Barbosa, jornalista, é responsável pela sucursal carioca do jornal digital Panorama Brasil
Como já anunciava Pero Vais à Câminha, na terra do berço esplêndido, em se pedindo dá-se um jeitinho.

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