Um blogue mal humorado, com aversão ao abominável modismo do "polìticamente correto" (hipòcritamente mal-resolvido). Blogue de um cético convicto, com a própria ortografia.

Ônibus

A prefeitura de São Paulo tem implantado novas faixas exclusivas de ônibus, que têm provocado muitos congestionamentos nas vias reservadas para os veículos particulares.

Prefeituras e governos estaduais e federal, de repente, descobriram que o transporte coletivo é precário em todos os seus aspectos. Começa pelos processos licitatórios de concessão de linhas, estende-se nos trajetos nem sempre lógicos, inclui os veículos sem conservação, os motoristas despreparados, e, pior de tudo, a freqüência insuficiente para atender a demanda, com evidente desrespeito aos intervalos que deveriam ocorrer entre um veículo e o seguinte.

Não obstante, vários veículos de imprensa têm feito elogios à “nova politica” da prefeitura. Vi pelo menos duas pesquisas feitas por repórteres, falando das “vantagens” do ônibus na faixa exclusiva contra os automóveis particulares.

Na pesquisa da Bandnews que ouvi, as duas repórteres chegaram ao destino com a “impressionante” diferença de 4 minutos! Na matéria do Estadão, a diferença foi maior.

A pequeníssima seriedade dessas pesquisas, é que os meios de imprensa calculam o tempo gasto com as viagens a partir do mesmo instante, sem levar em consideração que o passageiro do ônibus teve de esperar muito tempo pela condução no ponto,
contam a partida ao mesmo tempo,
sem levar em consideração o tempo que o “buseiro” perdeu esperando a condução no ponto, enquanto que o usuário do automóvel deu a partida e iniciou a viagem.

Não levam em conta, muito menos, a “hipótese” (eu disse apenas hipótese) de que o cidadão espere um tempão pelo busum, e a máquina chegue tão lotada que ele não possa entrar no coletivo. (O que dizer então a respeito dos vagões de trens e de metrôs?)

Um amigo me lembrou, ainda, que não contabiliza o tempo que o passageiro do ônibus teve de caminhar, de sua casa ou local de trabalho, até a parada de ônibus mais próxima.

Nada disso, porém, parece interessar aos hipócritas que agora resolveram aderir à preocupação com a “mobilidade urbana”. Mobilidade esta que depende em grande parte dos pés dos cidadãos.

Faixa exclusiva para ônibus, sem ônibus, é coisa de demagogos.

Não estou a defender o uso do transporte individual. Meu sonho seria dispensar o uso do carro. Minha maior crítica a Brasília, essa cidadezinha abominável projetada por arquitetos, é que ou se usa o carro para tudo, ou não se faz nada, pois todas as distâncias são impraticáveis para alguém que goste de uma caminhada. Distâncias que inclusive são incompatíveis para a tão badalada prática do ciclismo como meio de transporte. Esse serve certamente para meia dúzia de burguesinhos que trabalham mais ou menos perto do local de trabalho, mas não para quem precisa fazer deslocamentos de 30 ou 60 km, em cada sentido, para ir de casa ao local de trabalho, isso quando não necessita, ainda, acrescentar outras atividades como a escola ou a necessidade de comércio, durante o dia a dia. Na verdade, as ciclovias são apenas áreas de lazer para esses burguesinhos que durante a semana se deslocam em espaçosos SUVs, instaladas em calçadas que agora dividem espaço entre pedestres e ciclistas.

O transporte coletivo sempre foi ruim, e desprezado pelos políticos, mas, desde que recebeu o nomezinho de “mobilidade urbana”, virou algo com menos respeito a quem dele precisa.

Repito: faixa exclusiva para ônibus, sem ônibus, é coisa de demagogos, nada mais.

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Comentários em: "Ônibus" (2)

  1. Uma outra coisa a se pensar é que as faixas exclusivas para ônibus não permitem aos coletivos realizar ultrapassagens.

    Como os ônibus param nos pontos de acordo com a necessidade dos passageiros (ao contrário do metrô, que tem paradas programadas e constantes), acaba que os ônibus ficam retidos. Um veiculo que para em todos os pontos – por conta da necessidade dos passageiros – acaba aumentando tempo de viagem do veiculo que vem atrás e que em condições normais só pararia em dois pontos (porque todos os passageiros desse onibus concentram sua viagem para dois pontos).

    Com isso a faixa exclusiva acaba aumentando o tempo de viagem do próprio ônibus – que não pode mais usar a pista do meio para realizar ultrapassagens.

    Existem algumas alternativas a isso: dedicar duas faixas da pista para o transito exclusivo de ônibus, permitindo portanto a realização de ultrapassagens.

    Colocar apenas linhas expressas na faixas exclusivas, com embarque/desembarque limitado a alguns pontos chaves (dessa forma, ainda que o ônibus viesse cheio, as pessoas ficariam pouco tempo nele). Com paradas fixas é possível fazer um esquema semelhante ao do metrô, com horários bastante precisos.

    Mas realmente, tem muita hipocrisia e demagogia no “planejamento” do transporte público. Isso sem falar na corrupção…

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  2. Hoje a Flha de São Paulo fez o mesmo erro: falou da velocidade dos veículos, mas não calculou o tempo desperdiçado para aguardar um ônibus onde a pessoa pudesse embarcar.

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